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Final Table Champion 07

 

 

O Viveiro de Declamadores Está a Crescer

João Papelo * 30/12/06

 

À quinta-feira, 28 de Agosto, o rei ficou mais gordo na Vila-lice. O espaço THE KING’S albergou mais de uma centena de espectadores para curtir e viver a Poesia dramatizada ao vivo, ao som de guitarra. Um evento realizado todas as quintas-feiras do ano infalivelmente as 20:00 horas, pelo colectivo LEVARTE.

 

O fascínio dominou a plateia, não diferente de outros dias, com Dilson de Sousa e Manuela Alfredo no “complô” apresentando o programa da última quinta-feira do ano.

Lutandila na guitarra, o fulgor berrante das luzes intermitentes espalhavam a diversidade de cores no palco das estrelas, onde ate novos planetas se revelaram demonstrando talento.

 

A noite avançava, na proporção que a casa abarrotava de visitantes, uns já familiarizados com a casa, outros vão familiarizando-se ali mesmo. O casal de apresentadores então deu o remate inicial com o seu prólogo habitual que identifica o LEVARTE, convidando Lutandila a interpretar um dos seus números, mesclando os seus dedos mágicos às cordas da guitarra. E cantou. E encantou. E a seguir: adivinhem? Ao palco das estrelas subiu Duarte, não para recitar a “Menina na janela”, conforme habituou-nos, mas para cantar  “Rejeição”, acompanhado por Felisberto na guitarra.

 

Massundidi recitou o Poema “Um sonho no santuário exótico”, depois da canção de Duarte. Massundidi na sua lírica, sublima o amor mesclando a decadência de uma cidade que antes era bonita mas que agora perdeu a beleza, ora devolvida pelo seu universo temático e criativo pela ironizarão:

 

                                            Ontem levou-me a passear

                                            No universo dos seus braços

                                            Para contemplar a beleza...”

 

Era assim triunfal que Massundidi terminara a sua lírica sobre “a beleza que Luanda não tem”. A seguir, Elsa recitou um Poema para o seu namorado que se fazia presente ao local. “Ode urbana” um Poema que comoveu a plateia vibrante. Elsa era assim à noite de quinta-feira um planeta novo. Depois Ângelo Reis de pés descalços cantou seu verso para os vagabundos: homenageando-os? Não. Ângelo transportava na flor da pele a dor de um vagabundo qualquer no Mundo.

 

Kenda e Isaú Baptista subiram em palco, interpretando Lokua Kanza, deixaram a plateia cheia de emoção com a sua magia musical. Numa sequência Jandira veio com a sua malícia da Terra Nova e contaminou a plateia toda. Jandira recita sempre um género de Poesia que nos deixa chegar a uma segunda conclusão: Ela a Jandira é conservadora do seu género “imutável”. “Troquei o nome”, era a malícia que a Jandira preparou a partir do bairro da Terra Nova.

 

Como também é possível matar dois coelhos com uma só cacetada, Kardo Bestilo recitou, só por metade, vários Poemas do seu livro “CONTROVERSO”, com o lançamento previsto para Janeiro. Alice também Brindou a plateia com um Poema do “ CONTRVERSO” com o titulo “Cinderela no ano 2006”. Com o Poema, Alice encheu o peito como se fosse a própria cinderela do ano que finda. Entre a audácia, a intrepidez e a coragem Alice recita:

 

                                            Cinderela toma banho agora numa rua

                                            Lá no bairro do Hoji ya Henda, nova lenda

                                            Marimbando-se quem olha a sua fruta nua

 

É prova provada da dimensão que tem o livro. Um livro que já não é mais de Kussi Bernardo mas de todos amantes da arte de índoles diversa.

 

   Puner agarrado ao passado sem ser antiquado, autista ou coisa parecida, deu o seu grito de saudade:

                                           Que o passado regresse

                                            Que grande vontade tenho eu

                                            De ser criança, de regressar ao passado

                                            E andar em corridas com amigos

 

A plateia aplaudia com vigor a sucessão de poetas no local. Era o show. O show para despedir a ultima quinta-feira do ano. Wladimir Cardoso, ele que se chama o “imprescindível”, recitou um Poema que caracteriza bastante o seu estilo de actuação. Ele, Wladimir, que já tem duas obras no mercado, persiste a sua linha criativa da crítica social aguçada e isenta de tabú com humor e sagacidade recreativa. Depois o Sábio. Sábio recitou “Um bocado a sério” um Poema rico de criatividade e palavras simples, que por si só é explicativo.

 

Como pequenos frascos conservam grandes venenos, Emanuel Mendes surpreendeu a audiência quando pegou o microfone para interpretar o grande sucesso do país dos grandes imperadores da velha Roma. Emanuel Mendes com uma excêntrica e exuberante voz, cantou Pavarotti, grande sucesso de opera italiana arrebatando da plateia vozes de assobio. João Jorge, que também esteve no programa de entretenimento musical anual realizado pela Televisão Pública de Angola e a Radio LAC, denominado Estrelas ao Palco, foi chamado pelo casal de  apresentadores e interpretou “Cantei”, um sucesso de Konde.     

 

Castelo (em construção) demonstrou com a guitarra a música que a sua alma sente dedilhando algumas notas. Era mesmo um verdadeiro “castelo em construção”. Depois ainda Isaul Baptista e Kanda apresentaram mais um número de Lokua Kanza. E por fim o evento terminou ao som da banda da casa THE KING’S.         

 

“A magia das palavras”

Isalino Augusto debaixo da  Mulemba xa Ngola, aos 20 de Setembro de 2006.

 

Lev’Arte, a magia das palavras. Com esta frase estampada na parte de frente das camisolas, e atrás o sinal de prioridade com a frase ‘Prioridade a Leitura’ os Poetas da casa, deram as boas vindas ao público amante da poesia.

King’s Club já virou tradição poética toda quinta-feira a noite. Na semana passada a casa encheu literalmente. Ângelo Reis na apresentação debruçou-se, na primeira parte do programa,  sobre o grande enigma, Fernando Pessoa, o poeta místico. A plateia bebeu um pouco mais da seiva de Pessoa, o Alexander Search ou o Alberto Coeiro. Deixa p’ra lá o homem é mesmo místico, aliás foi membro da ordem da Rosa Cruz.

Vai abaixo o poema Deixem-me o sono ! Sei que é já manhã”

 

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar 
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.
 

 

            Foi o enigma em Pessoa que passou, na semana passada dia 14 de Setembro. No dia 7 de Setembro reflectiu-se sobre o que é Poesia? De facto toda quinta- feira, o Rei torna-se cada vez mais rico ali no King’s. O pessoal é arrebatado as alturas com metáforas sonantes e rios de lágrimas de alegria. Rasgam-se as mãos com palmas de satisfação.

            O Lev’Arte, como o nome indica, pretende levar a arte para vários recantos recônditos desta cidade da Kianda. Em Agosto os jovens artistas deslocaram-se ao Instituto Normal de Educação Garcia Neto.

 

Instilaram nos jovens estudantes o desejo de escrever. Descobriu-se jovens com potencialidades poéticas com metáforas maravilhosas, lembro-me dos lábios órfãos num verso do poema do estudante Sidrake. Ângelo Reis vibrou, o Maximus Angelicum, o poeta dos pés descalços como podem notar na foto abaixo.

            Hoje não é quinta-feira por acaso? Epá já estava esquecido, é proibido faltar. Vou preparar minh’alma para mais logo cair na Pompílio Pompeu e desfrutar com os Kings poéticos, hoje falarão da linda Alda Lara, a musa benguelense. Está feito o convite, assista poesia todas as quintas-feiras no King’s Club. Fui, até pela semana.

 

O Encantar do Lev’Arte

Isalino Augusto * 25/09/2006

 

Carríssimos leitores, eis-me aqui mais uma vez para compartilhar com vocês os momentos poéticos vividos no King’s Club. Como disse no último artigo, o King’s já virou tradição Poética toda a quinta-feira. Nesta última, dia 21 de Setembro, o tema de conversa foi a musa poética de Benguela, Alda Lara.

            Dilson, o apresentador do Lev’Arte, lamentou o facto de haver muito pouca informação sobre Alda Lara, a grande Poetisa. Disse ter consultado várias fontes, incluindo na internet, mas a informação em todas elas eram escassas. No entanto a plateia bebeu com alegria a informação obtida, para uns era tudo novidade e para outros serviu de acréscimo ao que já sabiam. Aliás, é um dos objectivos do projecto, divulgar vários nomes da Poesia Angolana e além fronteira incentivando assim, a sua leitura.

            Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque, nasceu em Benguela a 9 de Junho de 1930 e faleceu em Cambambe a 30 de Janeiro de 1962, casada com o escritor Orlando Albuquerque que propôs-se editar-lhe postumamente toda obra, resultando em um volume de poesia e um caderno de contos. Grande declamadora que alegrou grandes Poetas Africanos na casa do império, Alda brindou-nos com excelentes versos. Dilson destacou o Poema “Testamento” que pediu a participação da plateia para interpretarem os versos do testamento a prostituta mais nova do bairro mais velho e escuro. A prostituta que mereceu os brincos lavrados em cristal, límpido e puro...

            E como a Poesia nos permite várias interpretações, alguns da plateia sugeriram a sua percepção do Poema, tal foi o caso do jovem Krumane que comentou que Alda, mesmo sendo abastada, preocupava-se com os desafortunados, nas contas do outro sofrer ela deixou o seu rosário para os iletrados e os poemas loucos deixou-os para seu amor Albuquerque. Outras interpretações surgiram e enriqueceram o tema.

            Dilson, depois de ler o prólogo do evento, começou a chamar ao palco os Poetas da noite. O projecto tem ainda como objectivo tirar do anonimato artistas com talento para exporem os seus trabalhos, daí surgiram da plateia Poetas “curiosos”, os que pela primeira vez pisam o palco do King’s para o doce recital. Nzacran foi o primeiro com o poema de sua autoria “Sou nato de Angola”

                                               Visto o desprezo sem luz

                                               Nas manhãs sem verniz

            Seguiram-se outros poetas gotejando seus versos que levaram ao êxtase a plateia maravilhosa que rasgou palmas de alegria, deixando ao rubro as mãos. Dentre os quais Poetas que cantaram o amor:

 

                                               Gostaria de saber

                                               A regra do amor

                                               Está na lua nas palavras

                                               O rosto de uma princesa sem príncipe. Krumane

 

                                               Incubados fica o nosso destino

                                               Caminhamos longe no infinito

                                               do amor. Ludmila

 

            A doce Jandira, ao subir ao palco, a plateia cobrou-lhe o poema “Esclareça” onde o eu Poético pede ao seu amor que se esclareça se apenas quer usa-la ou ama-la de verdade entre outros esclarecimentos devidos, a mulher amada.

            Notei com muita atenção o jovem João Papelo cujas metáforas despertaram minha curiosidade, “Inconsciência”

                                               Eu vi mistérios isolados

                                               Nas unhas da madrugada

                                               Noite felina de cantos tristonhos

                                               Saudava as trevas na sua fresca expansão

 

Quebrou-se o momento de versos declamados para os versos cantados pela viola do Nelson Guitarra com a música “Monangamba, monangaba zé, monangabe monangaba ó”. Os Poetas da casa arrebataram as emoções da plateia. Dilson chamou ao palco o carismático Zé Isolde com o Poema “Quando cair a madrugada”. Ele disse que:

 

Quando cair a madrugada

Vai chover SIDA nas torneiras daquele bordel

Na Condel

Bem junto da casa do kota Fidel

 

            O show de cores e luzes que o Patolas captou as imagens, continuou vibrante quando Kardo Bestilo, o autor do Controverso, declamou o Poema que pariu na madrugada daquele dia, “Oh Caneta Perdida!”. Nguimba Ngola levantou a plateia com o seu característico ‘boa noite’, ele com o chapéu a moda do Poeta Agostinho Neto, cantou com a plateia o seu poema “A canção pensante de Kianda” , mais vibração. Lenny matou a plateia de risos com o que ousarei chamar croni-poema que falou do peido da vizinha no elevador, ele que ia perfumado no dia do homem, sexta-feira, a uma patuscada e, como ironia, suas meias também escondiam um forte kibuzo de chulé.

            Na segunda parte do programa, Zé Isolde, Kardo, Jandira, dilson e Nguimba Ngola, despejaram mais versos metaforizados para os presentes. O evento culminou com todos os poetas no palco para a habitual mistura, recitando versos no momento com um tema sugerido pela plateia “Contraste” e foi um verdadeiro contraste no palco, que o diga o Sábio.

            Fui, mais volto, pois continuarei a seguir as pisadas do Lev’Arte.

 

O Rei ficou mais Rico na Vila Alice

Isalino Augusto * 18/08/2006

 

O convite viajou rápido no veículo da tecnologia de informação “Assista Poesia Toda Quinta-Feira no King’s Club, O Rei ficou mais rico na Vila Alice, com Poesia ao ViVo ao som de Guitarra Nacional”.

            Minha alma amante apaixonada pela poesia saltou alegre ao local do evento. 17 de Agosto de 2006, King’s Club recebia assim outros amantes da poesia. Com um ligeiro atraso dos convidados, próprio num dia de semana, ainda assim a casa não deixou de acolher o calor de rostos brilhantes que decidiram deleitar-se com palavras carregadas de mensagem lírica com imagens e ritmos de acabar com o stress e levar-nos ao sonho.

Kussi Bernardo na apresentação, levantou as almas dos convidados que adormeciam no frio do doce cacimbo com sua poderosa voz. Kiamboteeee, o microfone gritou alto cumprimentando o pessoal. Começou o evento acordando nossas faculdades mentais para a personagem tão bela como a flor rica de doces e aprazíveis versos. Florbela Espanca, alguns na plateia tinham alguma noção de quem se tratava e Kussi, despejou em resumo parte da vida e obra da musa literária portuguesa. Eis alguns aspectos da sua vida: 1894: A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa. - 1915: Casa com Alberto Moutinho. - 1919: Entra na Faculdade de Direito, em Lisboa. - 1919: Primeira obra, Livro de Mágoas. 1923: Publica o Livro de Soror Saudade. – 1927: A 6 de Junho, morre Apeles, irmão da escritora, causando-lhe desgosto profundo. - 1930: Em Matosinhos, Florbela põe fim à vida. - 1931: Edição póstuma de Charneca em Flor, Relíquias e Juvenília e ainda das colectâneas de contos Dominó Negro e Máscara do Destino. Reedições dos dois primeiros livros editados. Verdadeiro começo da sua visibilidade generalizada.

Foram convidados voluntários da bonita plateia num número considerável que encheu a casa, para recitarem sonetos de Florbela Espanca.  O António e a Manuela, deixaram de lado sua timidez e apresentaram-se ao palco. Kussi terminou a apresentação da vida e obra de Florbela Espanca com o seguinte terceto do soneto intitulado “Eu”;

                                               Sou talvez a visão que alguém sonhou

Alguém que veio ao mundo para me ver,

E que nunca na vida me encontrou!

 

De seguida começou o desfile dos Poetas no palco do Rei, com fundo de tijolo verniz. Kussi, anunciou o primeiro Poeta da noite, Nguimba Ngola, que segundo o Kussi ‘o jovem que dá cabo dos nossos microfones’ recitou um soneto de sua autoria com o título “nas asas das éguas” note o segundo quarteto da poesia;

 

O vício cravou-lhe o ânus

Poisou em muitas águas

Cavalgando nas asas das éguas

Sangrou a raiz do prazer dos anos

 

Desfilaram outros Poetas maravilhosos que emprestaram o seu talento, Manuela, a linda menina com maravilhosas metáforas na sua poesia, Rodrigo, grande apaixonado da arte que vem já emprestando sua voz no espaço Bahia e, seguiram-se o Francisco, um virgem. Chamam virgem a todo Poeta que sobe pela primeira vez ao palco para o recital. Recitou também o Sábio e a linda Ludmila, com o Poema que fala dos pelos do namorado da sua amiga. Quebrou-se o clima para outro campo de arte, a guitarra do Nelson com seus dedos mágicos brindando-nos com a bonita música “umbi umbi yangue va kuele kala kassimbamba vossala possi”. A plateia vibrou, pulou e feriram as mãos com palmas alegres. Seguiu-se no desfile Ângelo Reis, eu gosto chama-lo Maximus Angelicum,  o Poeta dos pés descalços que emocionou a plateia convidando-os a participarem da recitação do Poema “Sara eu te traí” abaixo alguns versos;

 

                                               Quando tu  esperavas por mim

                                               Numa langerie vermelha no nosso

                                               Esperançoso cadeirão preto

                                               Oh!  Sara eu te traí

 

A plateia não se conteve quando foi brindada com teatro do Grupo Teatral “Muana Mwa Zanga” com Nelson e companheiros, jovens ilhéus talentosos com uma peça sobre o casamento, este mesmo Nelson brindou ainda a plateia que se fartou de rir liberando o stress do dia, com poesia cómica. O evento no auge surgiu em palco Kardo Bestilo, o autor do livro que será muito brevemente  lançado, o Controverso, recitou no seu estilo característico, correndo e pulando no palco como que num grande ‘Kibidi’ rebentando com o microfone e elevando a plateia ao delírio com o Poema que retrata o conflito entre fiscais do governo de Luanda e os zungueiros, vendedores ambulantes desta urbe, “Kibidi”;

                                                                              

                                               Eles silenciaram minha razão de viver

                                               naquele kibidi

                                               E ainda me deixaram cego e paralizado

                                               mas garanto que um deles

                                               jamais vai fazer uso do mambo

 

Na segunda parte do evento, na revira volta ou 360º em que os Poetas voltam com um segundo Poema na noite. Nguimba Ngola foi anunciado e pulou ao palco com o Poema “Extase na solidão da noite” e Ângelo Reis declamou “Eu sou o anjo que caiu do seu para t