A Quinta-Feira Lev’Artiana
João Papelo
A quinta-feira em Luanda faz-se compulsivamente especial para centena de citadinos que fazem do espaço The King´s à Vila-Alice um oásis de profundas reflexões e lugar de lazer espiritual. Tudo porque o Lev’Arte faz da poesia tradição sem subalternar todas outras formas de fazer a arte: a música, a pintura, a escultura, a dança, o teatro. O Lev’Arte, como o nome indica, é uma promotora de arte (sem fins lucrativos) com objectivo específico de promover o gosto pela leitura e escrita, não obstante tem a poesia como meio de expressão e de Auto-Divulgação.
Quero convidar o leitor para uma breve reflexão no âmbito daquilo que se faz as Quintas-feiras no espaço da Vila-Alice. Julgo honestamente que nenhum lugar suscita tanto como no The King´s, amor e esperança; sonhos e desilusões; paixão e ternura, onde se reflecte a base de uma amalgama de versos bem escrito e bem lidos por jovens criadores e dinamizadores de um movimento muito bem conseguido. Um espaço cuja adesão do público deixa antever um futuro promissor na literatura angolana. Tanto como nas outras formas de fazer a arte como já referimos no outro lugar. Socorramo-nos num estante às palavras do verso do poeta Alberto Caeiro:
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.
Esta síntese inicial ilustra talvez, a personalidade de cada amigo do Lev’Arte, e não só, que encontra na palavra trabalhada e esculpida, na palavra reinventada e combinada, na palavra sonora, multifacêtica e plurissignificativa a resposta das suas necessidades emocionais de índoles diversa. O espaço que a poesia ocupa no ser humano é de difícil descrição atendendo o carácter filosófico quiçá transcendental de que a poesia ocupa no panorama de quem escreve, de quem lê ou de quem escuta no seu recital (sessão de apresentação de poesia).
O verso escrito não é, para nós, nada mais que uma dose de analgésico para a alma do poeta: onde entrosam um misto de sentimentos de amor, de aversão, de hostilidade e indiferença perante a vida; de humor, de esperança e desespero, de sentimento de abandono, de descriminação, do belo e do perfeito; onde entrosam sentimentos de partida e ao mesmo tempo de chegada; de opressão e de liberdade, enfim, de todos aqueles fenómenos que norteiam o espírito e determinam a nossa intervenção perante o quotidiano.
Dentro deste ramalhete de questões, o que convém dizer é que a sensação que cada um sente ao chegar às Quintas-feiras de poesia no espaço The King´s Club, para participar da sessão dos Planetas Poéticos (muitos fazem-no depois de mais uma jornada laboral ou escolar), promovida pelo Lev’arte, é de um súbito reencontro consigo próprio. Cada um vê-se a si próprio e revê-se através da poesia como num espelho, ou sobre a superfície dum lago pacífico. É um momento especial e singular para cada um. É um momento cuja reflexão nos exige chegarmos no antro de nós próprios e tirarmos a ilação mais cómoda possível.
A poesia como manifestação artística e subjectiva, de interpretação personificada e individualista é, num outro ângulo, uma terapia do ego. É uma breve viagem aos recônditos do íntimo. Uma contemplação espontânea do indivíduo relativamente a si próprio. A poesia traduz forte sensação de lazer, e guerra ao mesmo tempo; traduz uma esperança bailarina que não exclui o prazer de dançar com o desespero no mesmo recinto de encenação que é o papel. A poesia traduz os sentidos ausentes no presente; celebra o elo do passado com o futuro. A poesia é um Pacto de Sangue:
Com sangue de menino
Assinamos o contrato de amigos para sempre
Mas nem a semente da velhice o adultíssimo
Com sua mulher tempo nos separou
Mas a distância nos separou
(…)
Kardo Bestilo, in ControVerso
A poesia que se apresenta ao público aderente nas sessões de Quintas-feiras de poesia na Vila-Alice, não é senão o esforço de transmitir um universo de símbolos e códigos onde a sonoridade da palavra poética é a arma distinta de cada um.
Já os eruditos da velha União Soviética, agora órfãos do comunismo, diziam através de um adágio bastante conhecido que “os últimos a chegarem comerão do que trouxerem”.
Esta geração de Poetas que agora vem com o seu arsenal de criação, se não é um resultado da prossecução das outras gerações de escritores, como insistem alguns “críticos pessimistas” (invejosos é uma palavra abusiva e demasiadamente pesada), então ela é a geração subjugada aos velhos dotes de criação literária mais rudimentar resultante das suas capacidades cognoscitivas e reprodutivas. Reproduzindo assim um universo de imagens, metáforas, sinestesias e rítmicas resultantes do seu conhecimento mais científico da língua (onde estão os bons entendedores?). Assim podemos concluir que nós os últimos “comemos do que trouxemos”.
E naturalmente se gera o africanismo; naturalmente se dá a luz da personalidade de um continente através da arte e de uma identidade que não se perde na longanimidade do verso Amiga da Zunga de Nguimba Ngola:
Raios de sol ainda a espreguiçarem-se
Já ela esta de pé, com a banheira na cabeça
Carrega nas costas o seu rebento
E sai correndo a cidade
Na ânsia de conseguir pão para os seus
Pés empoeirados
A descer a calçada,
Cansada e suada
Vem de todos os lados
Recantos recônditos da cidade cruel
“Amiga está aqui água fresca, é cinco Kwanzas!”
(…)
Nguimba Ngola, in ControVerso
É meramente típico no verso africano o aparecimento da mulher, como uma figura que representa uma conjuntura de elemento: o parto; o amor sagrado materno; a prostituta; a musa inspiradora dos Poetas; a irmã; a mãe que se pode resumir em abrigo e protecção. No verso que lemos acima reúne um pouco de todos estes conceitos. Para Nguimba Ngola a zungueira é a metáfora menor de um enredo maior: de pobreza, de sacrifício, de melancolia profunda e desalento.
Nguimba enternece a sensibilidade do leitor-espectador ao insinuar com uma espada de dois gumes a verdade de um continente que às horas tantas o observador menos atento ganha a percepção de interrogar-se se é filho legítimo ou bastardo do continente berço da humanidade. Do continente onde a diferença entre ricos e pobres é bastante acentuada, onde a insolidariedade social e o desdém do mais pacato cidadão uniram-se em comunhão de bens. Do continente que precisa alfabetizar os seus filhos, cruelmente entregues à rua da amargura com sacos de água fresca à procura de sustento.
Ao contrário de Nguimba Ngola, temos a Manuela Alfredo cuja criação é direccionada aos elementos da natureza. Manuela Alfredo é sempre pertinente no que escreve, associando um processo requintado de figuras onde a reduplicação, o paradoxo, a anáfora, a métrica muito bem enquadrada se consubstanciam numa engenharia poética cada vez mais próxima ao realismo do nosso tempo. Manuela Alfredo no seu poema distancia-se dos homens dotados de inteligência para dialogar com os outros seres da natureza: os pássaros, o mar, a planície dos roseirais, a beleza do amplexo ambiental, a noite, etc. E celebra o seu regresso à terra que a viu nascer:
Como é bom estar de volta
De volta ao aroma da terra árida
Mas tão frutífera
De volta a poeira do dia
Mas tão brilhante de noite
De volta ao silêncio
Dos candongueiros
Circulantes
Com o ritmo luandense
Dum cenário calmo
Uma grande evidence
Manuela Alfredo “Sly Jordan”
Os mentores desta engenharia do bem têm nome, são eles: Nguimba Ngola, Zé Isolde Sangama, Manuela Alfredo, Ângelo Reis, Fernanda Domingos (Canducha, para os mais chegados), Kardo Bestilo, Alice Sem Nome, Puner Kwenha, Leocádia, Jandira, Dilson de Sousa (quando é que sai o Monólogo?), Wilson da Silva (Ramzzi), Lioneth, Walter Kumba, Patolas, o autor destas linhas (João Papelo) e todos nossos amigos Poetas que fazem acontecer o recital de Quinta-feira às 20:00Horas em Luanda.
PS. Lembro-me com profunda nostalgia os dias da participação do Lev’Arte na Primeira Bienal Internacional do Livro realizada em Luanda de 02 a 09 de Dezembro do ano passado. A nossa participação representou uma grande experiência como artistas devotados à literatura. Ladeado dos representantes das grandes editoras portuguesas entre elas a Porto Editora, a Editorial Caminhos, a Dom Kixote, só para citar algumas. Para não falar das editoras nacionais. Participamos da reunião de mesa redonda e palestras convocadas, emitimos a nossa opinião como artistas e entusiastas da literatura. Regularmente a poesia era recitada ao vivo para os visitantes da feira; não só a Poesia dos autores do Lev’Arte como também de outros da nossa praça, ou de outra forma, dos autores do nosso rico xadrez literário.
A NOITE DO HOJE
Dilson N. de Sousa
Nada mais interessante do que receber um telefonema em cima da hora Lev’Arteana (18:55), a dizer que teríamos um convidado que, também, já tinha os seus convidados a caminho do King’s Club para o assistirem, festejarem (porque o convidado fez ontem 30 anos de idade), e para deliciarem – se com o evento.
Ruy Simões que falou com um dos participantes da Organização a mando do senhor Américo, que já em acto de desespero, ligou ao apresentador do evento a pedir que se dignássemos a recebe – lo para a nossa habitual “Mesa Bicuda”.
Não houve muita excitação em dizer que Sim!
Como o faríamos se, de antemão, já tínhamos o nosso programa bem estruturado para noite de poesia?
Seriam necessários trinta (30), minutos para uma conversa com “Nilo” que, era exactamente, o mesmo tempo que precisávamos para a combinada conversa com os nossos convidados previamente contactados antes do evento. Que embaraço!
Decidiu – se aceitar o desafio. Mesa bicuda com Kardo Bestilo, autor do ControVerso, Lenny Narciso, nosso companheiro de longa data Poética, Shinya Jordão, o apresentador convidado pelo Lev’arte, que confesso ter ficado com receio dalgum presumível fracasso. Engano!
Começamos exactamente as vinte horas de dez minutos (20h:10min), e Ruy de Carvalho Simões já la estava com Alexandre – seu Manager – que deu – nos toda a informação pessoal do autor do livro de crónicas intitulado “O Rosto da Chuva”.
Shinya e a Manuela Alfredo faziam as perguntas aos nossos ‘’convidados Bicudos” sobre o que é escrever, o que faz com que eles escrevam o que têm escrito e confesso ouvi respostas: ASSIM … ASSIM!
Enquanto o Evento continuava, as pessoas iam chegando e foi, nesta ordem de chegada, que o antigo jogador de futebol do Progresso, o Joãozinho, que foi como convidado do Ruy de Nilo, e que contagiou a sala com as suas dicas bwê fixe.
Depois foi a vez de Pirika, o jovem com os dedos e voz abençoada e com alma virada à musica Angolana que ouvimos quando ele subiu ao palco na companhia do Novo Planeta, o Jomo Fortunato que confessou ser já mobília da casa do Lev’arte que interpretou dois belíssimos temas musicais, Janela Aberta & Reviravolta.
Manuela assegurou a noite com presentes eternos (dois livros dos convidados presentes: O Rosto da Chuva de Ruy de Nilo e Controverso de Kardo Bestilo).
A noite foi correndo, os poetas desfilaram e com a plateia que estava ao rubro, só nos restou dar – lhes um cargo naquela noite do hoje. Eles foram os júris do concurso que teve como presenteados dois livros, a cima referidos, a Fernanda (que ficou com o Livro de Ruy de Nilo), e o Abel (que ficou então com o Controverso de Kardo Bestilo).
Aproximávamos – nos da hora Dez (10h:00min), e Manuela fazia – me o sinal de “TIME IS UP” e que tínhamos que fechar a noite com uma Mistura que acabou por ser chamada de "O HOJE". Desta vez na opinião feminina.
Fizemos a mistura, Patolas registou tudo com a Camera de Vídeo e fechamos a noite de 22.12.2006, mas não fomos para casa sem gravarmos alguns agradecimentos e não só para os nossos amigos e fiéis participantes.
Lev’Arte
A Magia das Palavras
22 de Dezembro de 2006
Lev’Arte leva Poesia às Escolas
Isalino Augusto * 24/09/2006
Este título na página cultural do semanário AGORA, edição do último fim-de-semana, despertou-me curiosidade. Por acaso, eu estava a dirigir-me a mais um evento do projecto Lev’Arte.
Sob o olhar da fortaleza de São Miguel, o Centro Imaginação, acolheu nos seus aposentos, os poetas do projecto para mais um evento artístico poético e, confirmou o que eu li no semanário.

“Lev’arte é a denominação de um projecto de jovens... que no intuito de cultivar o gosto pelas artes nos mais jovens, leva a Poesia e a literatura às escolas... É objectivo do projecto a promoção do interesse pela leitura por todas classes sociais e idades.”

No sábado dia 23 de Setembro, os poetas animaram cerca de meia centena de crianças com idades compreendidas entre os 6 aos 16 anos de idade. Os membros do projecto incentivaram as crianças a desfrutarem do prazer da leitura e da escrita. Dilson falou as crianças sobre o que é Poesia em linguagem apropriada para os cambongas presentes. Nguimba Ngola mostrou de forma simples alguns elementos da poesia, a rima e a metáfora. As crianças provaram que tinham alguma noção do que se tratava.
Kardo Bestilo e Nelson Teatro, fizeram a apresentação do show, com um sabor muito divertido e próprio para a criançada, com palmas e brincadeiras infantis, até fez me lembrar um pouco o carrossel, com as crianças e adultos deliciando todo o molho.
Miquéias, um menino de 12 anos, disse que Poesia é arte. O Miquéias espantou os presentes com poemas maravilhosos no seu jeito característico de declamar. Ele começa assim “meu nome é Miquéias, eu não sou Poeta e nunca fui Poeta, sou apenas amante da Poesia” e no fim, “declamou o Miquéias e escreveu o Miquéias. Palmas estrondosas soltaram-se quando o petiz declamou entre vários poemas o “Ser Soldado”.
Seguiram-se outras crianças que demonstraram o dom artístico tal como o Dionísio de 7 anos, e o António Francisco de 10 anos. A pequena Isabel de 9 anos, que prefere ser chamada Jêssica, (Nguimba Ngola inspirou-se na menina para escrever o Poema “Teus olhos lindos brancos de criança”) brindou os presentes com uma canção muito linda tal como o Carlos de 9 anos. As crianças demonstraram dotes artísticos escondidos que devem ser bem explorados.
A plateia viu o rebentar das costelas de tanto rir quando, o grupo teatral Mwana Mwazanga que apresentou a peça “Nené diabo”. Foi um desafio dos Poetas do projecto declamar para crianças. Começaram a mostrar aos petizes o que sabem fazer. O jovem Nzacran leu o Poema “Destino” que retirou do livro Pausa de Cristóvão Neto, tal como a Ludmila que declamou o Poema “Menino do Largo”.

Nguimba Ngola, este inspirou-se no momento como já referi, com o poema intitulado “Teus olhos lindos brancos de criança” Eis o poema:
Oh teus olhos lindos brancos de criança
lembram-me algodão doce do musseque
no pula pula da macaca
nas garrafinhas que hoje já tem outras caras
no bica bidon com os filhos da vizinha
e o brincar de papá e mamã na esquina do quintal
lá no Marçal, oh que saudades
oh teus olhos lindos brancos de criança
me trazem a memória os tempos do cassumbula
e do a dar aí, revista e ninguém me revista
o chorar de lágrimas para não ir a escola
nas manhãs molhadas de xixi
e a mamã zangada e a gritar:
“acorda menino já é hora de ir a escola”
oh teus olhos lindos brancos de criança
me animam a soltar estes versos amarrotados
na imaginação esquecida de criança traquina
oh minha linda Jéssica, minha pequena musa inspiradora
Deus te abençoe e o futuro te brinde com muita alegria
Ângelo Reis declamou o Poema “Os meus carris de menina” no seu jeito peculiar com os pés descalços, ele é o poeta dos pés descalços, rebolou, pulou, chorou enfim, para alegria dos putos. Dilson declamou “Ouvir o silêncio” e pediu a participação dos meninos. Seguiram-se o João Papelo com “Saudades” do livro Controverso de Kardo Bestilo, tal como o Zé Isolde com o poema “Diobado” e os petizes repetiram com ele “o relógio diz que não e meu corpo diz que sim”
Nelson Guitarra completou o show nas cordas violinas cantando com a criançada “bolinha no pé, bolinha na mão, bolinha que rola no pé do João”. No final os pequenos poetas juntaram-se e soltaram versos no momento que resultou na seguinte mistura infantil:
Eu sou criança
Eu sou esperança
Não sei de nada
Mas quero o futuro
O futuro do amanhã
Nós somos a paz de Angola

Distribuíram-se biscoitos aos putos que saíram animados. O Miquéias foi cobiçado pelos membros do projecto que deslocaram-se a casa dos seus pais, e solicitaram autorização para leva-lo ao evento de quinta-feira poética no King’s Club. O director do Centro animou-se com o evento e abriu as portas para o Lev’Arte, sempre que desejar voltar.
É, Lev’Arte leva poesia às escolas.

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